segunda-feira, 2 de maio de 2011

Medo da dúvida.

Talvez por ser amante das ponderações, questionamentos e coerência, não consigo - e admito que não tento muito - entender o radicalismo. Faço parte dos que enchem o peito para entoar o clichê "tudo é relativo", em qualquer situação.
No futebol ficamos do lado do nosso time e defendemos suas ações, não importa se está ganhando, perdendo, certo ou errado. Porém, na vida e em situações reais, não acredito que as coisas devam funcionar assim. Entre o certo e o errado, existem muitas coisas, que não devem ser ignoradas.
Entretanto, penso que cada pessoa vê da verdade inteira apenas fragmentos, lascas, conforme sua lente particular de distorção. A verdade é simplesmente uma ampliação de sua interpretação falha do fragmento ou lasca que consegue enxergar.
Então, o que é a realidade? Pode ser a verdade concreta. Ou pode ser para cada indivíduo o que esse indivíduo escolhe fazer do seu cantinho do mundo. A realidade é relativa, depende da lente pela qual se olha.
Cada pessoa interpreta, altera, torna-se obcecada com propensões e atitudes pessoais, transformando a realidade objetiva em algo quase pessoal. Vivemos todos em nossos próprios mundos, fazemos e refazemos nossas realidades pessoais. E meu mundo de sonhos - quanto ele é mais válido, mais próximo da verdade do que o mundo das outras pessoas? Válido pra mim, talvez. Embora não seja metafísico.
Mesmo se eu considerar câncer real, se pessoas acreditam em vida após a morte, em um reino espiritual, encontram nisso um consolo agradável, o que lhes pode dar muita força individual. Não adianta insistir "isso é absurdo, não funciona assim". Pra mim não é assim. Para elas, é assim, absolutamente. E portanto os indivíduos constroem reinos de fantasia absolutamente reais (todos "verdadeiros", mas simultaneamente exclusivos). Minha bolha fantástica de realidade existe lado a lado com as delas. Vivemos e circulamos juntos no mundo, motivados por nossas próprias fantasias de realidade. E até essa minha idéia é em si uma realidade fantasiada.
O homem trabalha em laboratórios para descobrir a verdade. Mas o que a mente apreende, os sentidos contradizem. E quem poderia difamar os sentidos, dizendo que são falsos? Escolha seus heróis, seu partido. A idéia (mente) diz que os trilhos do trem são paralelos e nunca se encontram. A percepção (sentidos, no caso, a visão) diz que os trilhos se encontram num ponto distante. Qual é a verdade? Os dois são conceitos de percepções.
E quanto a mim, capto tudo pelos sentidos. Vejo, saboreio, toco, escuto. E as palavras abstratas são sintetizadas a partir do campo da experiência concreta. De todos os homens beijando as mulheres e mães amamentando os filhos, temos o "amor". Conceito abstrato que é aplicado no campo da percepção concreta.
"Tudo é o mesmo, mas diferente". Essa frase é mais uma vez uma visão original do universo repetitivo e variado que o homem trabalha para transformar em algo seu. Somos todos seres humanos, mas tão diferentes como somos iguais. Tão opostos quando parecidos. Conhecemos algo pelo seu oposto: quente por ter experimentado o frio; bom por ter decidido o que é ruim; amor por ódio.
E ainda há quem diz haver certos padrões morais absolutos na sociedade, que nem tudo é relativo como eu concluo. Por exemplo, que em lugar nenhum é "bom" prejudicar um amigo pelas costas, matando-o talvez. Tudo bem. Um "amigo" é definido como alguém com quem se estabeleceu um vínculo pessoal, feito de amor e compreensão, seria condenável magoá-lo de qualquer forma. Mas se ele ficasse louco, esse amigo hipotético, você não sabe se faria o que a sociedade exige e o internaria num hospício ou se preferiria atender ao seu pedido, deixando-o solto. Sua lealdade se aplicaria a ele ou ao bem-estar da comunidade? E, só pra constar, vamos levar em conta todos os "amigos" em potencial que matamos nas guerras, só por terem sido rotulados de "inimigos".
Tudo o que fazemos é tentar escolher o menor de dois males? O homem nasceu com o pecado original? Ou talvez tenha nascido num mundo de "pecado", sendo o pecado o dilema de optar entre o errado e o menos errado, sem nada que aprove ou desaprove a escolha. Nada, exceto as consequências da opção e a ação resultante de decidir se a escolha foi boa ou ruim. E mesmo assim, sempre a dúvida.

4 comentário(s):

yuRi Gregório disse...

Concordo com vc, que tudo é relativo! O que pode ser certo pra mim, pode ser errado pra vc. O exemplo dos trilhos do trem, foi fantástico! O foda também, é que a sociedade tá com mania de rotulação. TUDO SE COLOCA UM RÓTULO!
A grande verdade, é que não existe uma verdade absoluta!

E como estudante de História que sou, estudando Foucault, - sim estudamos ele- eLe inclusive questiona alguns fatos. "É preciso entender o social, como a sociologia entendia, algo que seja palpável."

A sociedade, é aquilo que escrevemos, pintamos, esculpimos. Não existe história total. Ver a sociedade como um conjunto, é totalmente equivocado! "Hisótia geral sim, total não."

Toda história total, parte de um centro, ou seja, acaba sendo determinada. Não pode haver centro, hierarquia, e muito menos previsão.

- Benny. disse...

Putz! Nunca imaginei tu redigindo um texto com caráter epistemológico e metafísico! Véi, tu precisa começar a ler filosofia urgente! Vai ver o quanto o seu tema é frequente na filosofia e talvez se identificar. Talvez até começar pela República de Platão, de uma boa tradução.

Mas vamo lá, quebrar o pau:

O relativismo absoluto é, evidentemente, radical (no sentido errado de radical como vou tentar explicar). Não temos o que discutir disto né? E, além disso, o relativismo absoluto é auto-refutável, isto é, sua idéia quando projetada em si mesma revela uma contradição: se tudo é relativo até o relativismo é relativo, é, pois, um ciclo vicioso.

Bom, talvez você não saiba o significado real da palavra radical, Platão explica isso! A própria etimologia da palavra "radical" se refere não à fundamentos rígidos e intransponíveis, mas à *raíz*. Lembra do significado do termo radical na matemática? Pois é, é este mesmo! O senso comum costuma usar a palavra radical para atribuições erradas, confundindo fundamentalismo com radicalismo.

- Benny. disse...

Vejamos:

O fundamentalismo diz respeito a doutrinas que se sustentam sobre preceitos absolutos, categóricos. Em outras palavras, uma doutrina fundamentalista é aquela que não aceita debate e se sustenta em seus fundamentos como que por fé. Assim agem, por exemplo, as seitas fundamentalistas do oriente médio, como o talibã e etc. A definição de fundamentalismo você acha na wikipedia fácil.

Bom, agora, sobre o radicalismo (que frequentemente se confunde com o fundamentalismo) é justamente o CONTRÁRIO do fundamentalismo pois, diferentemente, são doutrinas que se sustentam no DEBATE. Ora, isso pode soar estranho quando não conhecemos o real significado de radicalismo, mas sejamos pacientes. O radicalista (raiz) inicia seu debate, sempre, pelas RAIZES do assunto. A grosso modo, vão direto na raiz do problema, o que pode assustar a população inerte intelectualmente, pois, justamente, desconhecem as raízes de um problema social, político e econômico. Assim, por exemplo, quando um anarquista diz: a submissão, a miséria e o sofrimento têm suas raízes na ordem econômica ele está sendo radical. Em prática, ele irá protestar contra a ordem econômica portanto, e não contra os problemas sociais pontuais, solicitamos reformas políticas e etc, pois isso seria paliativo e não seria a alma do problema. Logo, o radicalista é aquele que estuda os sustentáculos de um dogma, de uma doutrina, de uma ordem econômica, de um preconceito e etc, e o jogo em debate, em vez de reafirmar a sua própria doutrina como a única possível.

- Benny. disse...

Sobre os "mundos pessoais" (que acredito que você queria falar sobre o *subjetivismo") é algo muito discutido na filosofia, sobretudo na teoria do conhecimento ou epistemologia. Digo isto, pois você está confundindo ou, talvez, desconhecendo alguns conceitos epistemológicos e metafísicos. Cara, seria muito massa, eu acho, se você pegasse algumas coisas sobre pra ler! Durante toda a história da filosofia, desde a grécia, pessoas já pensaram seriamente sobre essas questões e produziram obras fantásticas. Gostei muito de saber que se interessa por esses temas.

Abraços!