Talvez por ser amante das ponderações, questionamentos e coerência, não consigo - e admito que não tento muito - entender o radicalismo. Faço parte dos que enchem o peito para entoar o clichê "tudo é relativo", em qualquer situação.
No futebol ficamos do lado do nosso time e defendemos suas ações, não importa se está ganhando, perdendo, certo ou errado. Porém, na vida e em situações reais, não acredito que as coisas devam funcionar assim. Entre o certo e o errado, existem muitas coisas, que não devem ser ignoradas.
Entretanto, penso que cada pessoa vê da verdade inteira apenas fragmentos, lascas, conforme sua lente particular de distorção. A verdade é simplesmente uma ampliação de sua interpretação falha do fragmento ou lasca que consegue enxergar.
Então, o que é a realidade? Pode ser a verdade concreta. Ou pode ser para cada indivíduo o que esse indivíduo escolhe fazer do seu cantinho do mundo. A realidade é relativa, depende da lente pela qual se olha.
Cada pessoa interpreta, altera, torna-se obcecada com propensões e atitudes pessoais, transformando a realidade objetiva em algo quase pessoal. Vivemos todos em nossos próprios mundos, fazemos e refazemos nossas realidades pessoais. E meu mundo de sonhos - quanto ele é mais válido, mais próximo da verdade do que o mundo das outras pessoas? Válido pra mim, talvez. Embora não seja metafísico.
Mesmo se eu considerar câncer real, se pessoas acreditam em vida após a morte, em um reino espiritual, encontram nisso um consolo agradável, o que lhes pode dar muita força individual. Não adianta insistir "isso é absurdo, não funciona assim". Pra mim não é assim. Para elas, é assim, absolutamente. E portanto os indivíduos constroem reinos de fantasia absolutamente reais (todos "verdadeiros", mas simultaneamente exclusivos). Minha bolha fantástica de realidade existe lado a lado com as delas. Vivemos e circulamos juntos no mundo, motivados por nossas próprias fantasias de realidade. E até essa minha idéia é em si uma realidade fantasiada.
O homem trabalha em laboratórios para descobrir a verdade. Mas o que a mente apreende, os sentidos contradizem. E quem poderia difamar os sentidos, dizendo que são falsos? Escolha seus heróis, seu partido. A idéia (mente) diz que os trilhos do trem são paralelos e nunca se encontram. A percepção (sentidos, no caso, a visão) diz que os trilhos se encontram num ponto distante. Qual é a verdade? Os dois são conceitos de percepções.
E quanto a mim, capto tudo pelos sentidos. Vejo, saboreio, toco, escuto. E as palavras abstratas são sintetizadas a partir do campo da experiência concreta. De todos os homens beijando as mulheres e mães amamentando os filhos, temos o "amor". Conceito abstrato que é aplicado no campo da percepção concreta.
"Tudo é o mesmo, mas diferente". Essa frase é mais uma vez uma visão original do universo repetitivo e variado que o homem trabalha para transformar em algo seu. Somos todos seres humanos, mas tão diferentes como somos iguais. Tão opostos quando parecidos. Conhecemos algo pelo seu oposto: quente por ter experimentado o frio; bom por ter decidido o que é ruim; amor por ódio.
E ainda há quem diz haver certos padrões morais absolutos na sociedade, que nem tudo é relativo como eu concluo. Por exemplo, que em lugar nenhum é "bom" prejudicar um amigo pelas costas, matando-o talvez. Tudo bem. Um "amigo" é definido como alguém com quem se estabeleceu um vínculo pessoal, feito de amor e compreensão, seria condenável magoá-lo de qualquer forma. Mas se ele ficasse louco, esse amigo hipotético, você não sabe se faria o que a sociedade exige e o internaria num hospício ou se preferiria atender ao seu pedido, deixando-o solto. Sua lealdade se aplicaria a ele ou ao bem-estar da comunidade? E, só pra constar, vamos levar em conta todos os "amigos" em potencial que matamos nas guerras, só por terem sido rotulados de "inimigos".
Tudo o que fazemos é tentar escolher o menor de dois males? O homem nasceu com o pecado original? Ou talvez tenha nascido num mundo de "pecado", sendo o pecado o dilema de optar entre o errado e o menos errado, sem nada que aprove ou desaprove a escolha. Nada, exceto as consequências da opção e a ação resultante de decidir se a escolha foi boa ou ruim. E mesmo assim, sempre a dúvida.
O Blondie, pela Blonder.
2 anos atrás
